Dubes Sônego Jr

O jornalista que ajudou o Brasil a enxergar seus desertos de notícia

Por Eduardo Mendes |
Retrato do jornalista Dubes Sônego Jr.
Não há pressa quando o protagonista da sua história é você mesmo — Dubes Sônego.
(Reprodução: Catarse/Dubes Sônego)

A trajetória de Dubes Sônego Jr. começa muito antes de qualquer gráfico sobre desertos de notícias ou mapas coloridos apontando os vazios de cobertura jornalística no interior do Brasil. Começa no final da década de 1990, quando ele ainda carregava o peso de rolos de filme fotográfico nas mochilas e tentava entender, entre uma pauta e outra, qual seria seu lugar no jornalismo.

Formado pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1999, Dubes saiu de Florianópolis com uma certeza difusa, mas persistente: queria contar histórias. A princípio, as histórias vinham cifradas em números, tabelas e índices de mercado. Sua primeira experiência foi como estagiário na Gazeta Mercantil, um dos principais jornais de economia da época. Não demorou muito para cruzar a ponte aérea até São Paulo, onde seu nome começaria a circular entre as redações do jornalismo econômico. Passou pelo Valor Econômico, pelo Meio & Mensagem, pela revista Foco, pela América Economia, pelo Brasil Econômico, pelo IG, pela Época Negócios. Entre um emprego fixo e outro, ser freelancer virou parte da rotina, com reportagens publicadas em veículos como Estadão, Folha, UOL, VIP e Exame.

Mas enquanto redigia textos sobre o PIB, o dólar, o câmbio e a balança comercial, Dubes carregava outra inquietação. A fotografia, que começara como escolha de tema para o Trabalho de Conclusão de Curso, era um campo de respiro e de olhar mais lento. No final dos anos 90, ao lado de colegas, ele viajou até a Bolívia para registrar as transformações sociais provocadas pela construção do gasoduto Brasil-Bolívia. Em Potosí, cidade descrita por Eduardo Galeano como um dos grandes símbolos da exploração colonial, Dubes clicou rostos, ruas de terra e a rotina de trabalhadores nas minas de prata.

O gosto por narrativas visuais não se perdeu nos anos seguintes. Durante uma temporada no Canadá, aproveitou a queda dos preços das câmeras digitais para retomar os cliques com mais frequência. Quando as Jornadas de Junho de 2013 explodiram nas ruas brasileiras, Dubes estava lá, câmera em punho, registrando o caos e o inédito. Em Cuba, em 2015, transformou as imagens em exposição. Fez o mesmo na Rússia, em 2018. Na Venezuela, em 2016, tentou fotografar, mas foi vencido pela sensação de insegurança: “Era difícil usar a câmera na rua na época”, lembra.

Foto de manifestação em São Paulo em 2015, mostrando um aluno sendo imobilizado por policiais.
Quando a rua treme, não é o asfalto que grita: aluno é imobilizado e carregado pendurado pelos braços por policiais, após manifestação contra o fechamento de quase 170 escolas em São Paulo, 2015.
(Reprodução: LensCulture/Dubes Sônego)

Ao longo desses anos, a fotografia seguiu sendo uma paixão que orbitava a profissão principal. Dubes nunca se tornou, nas palavras dele, um “fotógrafo de destaque”. Mas a atenção aos detalhes, à geografia humana e ao que não é dito – tudo isso também é fotografia. E talvez tenha sido essa habilidade de enxergar os vazios que o levou, alguns anos depois, a ajudar a mapear justamente o que estava faltando: a informação local no Brasil.

O convite para cartografar a notícia

O convite não veio com pompa. Não houve e-mail formal, nem reunião agendada em escritório com vista panorâmica. O convite veio como quase tudo na carreira de Dubes, por uma conexão humana construída no corre-corre das redações.

Quem fez o chamado foi Sérgio Spagnuolo, um antigo colega dos tempos da revista América Economia, com quem Dubes havia compartilhado pautas e deadlines. Sérgio, então à frente do Volt Data Lab, começava a desenhar, junto com Angela Pimenta, presidente do Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor), uma proposta que parecia simples no papel, mas que rapidamente mostraria sua complexidade: mapear os veículos jornalísticos em todo o território brasileiro.

A inspiração vinha de fora. Nos Estados Unidos, a Columbia Journalism Review começava a chamar atenção para um fenômeno até então sem nome: os “desertos de notícias”. Pequenas cidades onde não havia mais jornais, nem rádio, nem sites locais com cobertura jornalística minimamente regular. O jornalismo local estava desaparecendo do mapa.

No Brasil, a situação não era muito diferente, mas ainda faltava um diagnóstico nacional. Quando Dubes recebeu o convite para integrar a equipe do Atlas da Notícia, o projeto já tinha um ano de existência, funcionando quase como um laboratório de jornalismo de dados. Os primeiros passos haviam sido dados com base em cruzamentos de informações públicas: bancos de dados da SECOM, da Associação Nacional de Jornais (ANJ), da Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER). Um quebra-cabeça de planilhas, CPFs e CNPJs, listas de veículos que, muitas vezes, já nem existiam mais.

“No começo, a gente estava basicamente limpando uma grande caixa de informações desatualizadas”, lembra Dubes. O trabalho era meticuloso. Para cada nome de veículo, era preciso verificar: ainda existe? Ainda circula? Está só no papel ou migrou para o digital? Tem redes sociais? Tem alguém por trás dele ou virou um site-fantasma?

A busca por respostas envolvia tudo: de consultas em sites oficiais a telefonemas diretos para prefeituras e até ligações para estabelecimentos comerciais das cidades mais afastadas do mapa, como padarias, farmácias ou pequenos hotéis. A pergunta era quase sempre a mesma: “Vocês conhecem algum jornal, rádio ou portal que cubra as notícias locais por aí?”

Com o tempo, a metodologia foi se aprimorando. O Atlas passou a trabalhar com pesquisadores regionais, voluntários de universidades, alunos de jornalismo que se dedicavam a atualizar o banco de dados, caçar informações nas redes sociais, e às vezes até visitar fisicamente os locais.

Se no início, o projeto parecia um esforço de catalogação, hoje é uma espécie de termômetro nacional da presença de jornalismo local. São mais de 14 mil veículos mapeados, espalhados por um país de dimensões continentais. Alguns com estrutura robusta. Outros, pequenos blogs de bairro, tocados por um único jornalista que faz tudo: apuração, redação, publicação e até o próprio marketing nas redes sociais.

“Cada atualização é quase uma nova reportagem”, diz Dubes. “A gente não consegue olhar para todos os veículos ao mesmo tempo, então vamos por etapas, por regiões, por tipos de mídia… Mas o objetivo é sempre o mesmo: entender quem está informando quem, e onde”, complementa.

Essa obsessão por mapear revelou uma realidade dura: em mais da metade dos municípios brasileiros, não há qualquer veículo jornalístico local. As pessoas se informam por rádio de outras cidades, por sites de grandes centros ou, muitas vezes, por aquilo que circula de boca em boca ou pelas redes sociais.

Mapa do Brasil mostrando a distribuição de desertos de notícias.
Onde a notícia não chega, o silêncio impera: Distribuição dos municípios brasileiros segundo o grau de acesso a veículos jornalísticos.
(Foto: Eduardo Mendes)

A crise que vem de todos os lados

Se fosse só uma crise econômica, talvez o jornalismo tivesse encontrado uma saída mais rápida. Mas o problema, como Dubes gosta de lembrar, é de múltiplas camadas. Não é só falta de dinheiro, é falta de atenção. Falta de confiança e também de tempo.

“Hoje a gente disputa tudo: atenção, credibilidade, espaço nas plataformas”, resume. A metáfora que ele usa é simples: se antes os jornais brigavam por um lugar na banca ou por um horário na TV, agora a concorrência é com o feed de vídeos engraçados, com o tutorial de maquiagem no TikTok, com os stories de influenciadores. “As pessoas veem muito mais TikTok do que leem notícias”, diz, com uma mistura de constatação e resignação.

A crise de atenção, segundo ele, é tão grave quanto a financeira. A publicidade, que sustentou o jornalismo por décadas, migrou para o Google e o Facebook, em campanhas hiper segmentadas que prometem entregar o anúncio certo, para a pessoa certa, no segundo exato em que ela pensa em comprar. Enquanto isso, as redações minguam.

“É muito mais barato e eficiente para o anunciante colocar dinheiro numa plataforma de busca ou numa rede social”, explica. “Para quem está tentando sustentar um veículo de comunicação, sobrou o desafio de fazer jornalismo de qualidade com receita cada vez menor”, fala.

Se a tecnologia por um lado abriu possibilidades (qualquer pessoa com um celular pode hoje publicar, filmar, criar podcasts) ela também trouxe um efeito colateral difícil de controlar, que é o crescimento exponencial da desinformação. Notícias falsas, boatos embalados como verdades, manchetes enganosas. E, mais recentemente, um novo ingrediente que começa a embaralhar ainda mais o jogo: a inteligência artificial generativa.

Sobre esse ponto, Dubes é direto: não é otimista. Vê na IA uma ferramenta ainda imatura, que tem sido usada mais para baratear custos e acelerar a produção de conteúdo do que para melhorar a qualidade da informação. “A IA tende a aumentar o volume de coisas mal feitas. O que a gente já enfrenta hoje com fake news deve piorar. As agências de checagem já não dão conta do que tem. Imagine quando tiverem que lidar com conteúdo automatizado em escala", exclama ele.

Enquanto a desinformação corre com velocidade de fibra óptica, o jornalismo local, aquele feito nos rincões, nas cidades pequenas, nos bairros periféricos, tenta sobreviver com os recursos que tem. E é aí que Dubes se detém: numa desconstrução quase pessoal do olhar que ele mesmo já teve um dia.

“Eu venho de uma geração em que trabalhar na grande imprensa, em São Paulo ou no Rio, era o objetivo máximo. O jornalismo do interior era visto com muita desconfiança”, conta. Durante muito tempo, predominou a imagem de jornais locais atrelados a grupos políticos ou econômicos regionais, dependentes de verbas da prefeitura, com pautas muitas vezes superficiais ou enviesadas.

Mas o Atlas da Notícia virou o espelho que faltava. Ao mergulhar nos dados, Dubes viu veículos pequenos, com estrutura mínima, mas que faziam jornalismo sério, com responsabilidade editorial e compromisso com a comunidade. Sites de bairros, rádios comunitárias, blogs independentes que fiscalizam o poder público, cobrem sessões da câmara municipal, denunciam irregularidades e, não raro, enfrentam retaliações.

“O que a gente percebeu nesses anos de Atlas é que o jornalismo local é muito mais diverso do que a caricatura que se fazia dele”, diz. “Tem veículos que são, de fato, atrelados a interesses políticos locais? Tem. Mas também tem gente fazendo um trabalho excelente, com ética, com técnica, com vontade de fazer diferença”, complementa.

E é justamente esse jornalismo que mais sofre quando o financiamento some e a atenção do público vai para outro lugar. O ciclo vicioso se repete: menos receita, menos repórteres, menos cobertura, menos confiança. E, no meio desse vazio, as fake news encontram solo fértil.

“Se você não tem um veículo local para checar o boato, a versão que circula no grupo de WhatsApp vira a verdade oficial da cidade”, resume Dubes.

O deserto de notícias, portanto, não é só um conceito acadêmico. É uma realidade que se infiltra no cotidiano das pessoas – e que tende a crescer se a crise continuar vindo de todos os lados.

Como cobrar algo que nunca se teve?

Entre as muitas frases que Dubes já usou para tentar explicar o que significa viver num deserto de notícias, uma metáfora simples virou sua favorita: “Se você sempre tomou banho frio, não vai sentir falta do banho quente”, fala.

É assim que ele define o maior desafio de falar sobre a ausência de jornalismo local em centenas de municípios brasileiros: a invisibilidade da própria ausência. Como cobrar um serviço público – porque é assim que Dubes enxerga o jornalismo – que nunca chegou até você?

Ao longo dos últimos anos, os números que ele ajudou a organizar no Atlas da Notícia foram desmontando certezas e mostrando o tamanho real do problema. Um dos dados que mais costuma surpreender, até mesmo professores de comunicação, é o recorte regional: mais da metade dos municípios do Sudeste brasileiro estão hoje em desertos de notícia. Uma estatística que desafia a ideia de que desenvolvimento econômico necessariamente anda de mãos dadas com a pluralidade informativa.

“A gente tende a achar que o problema da falta de jornalismo local é uma realidade do Norte, do interiorzão do Nordeste, mas o Sudeste, que é a região mais rica do país, tem mais de 50% das cidades sem nenhum veículo jornalístico local ativo”, conta Dubes. O dado é de 2023. E ele faz questão de repetir sempre que tem oportunidade.

Outro recorte que Dubes acompanha com atenção é a correlação entre presença de veículos jornalísticos e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). A leitura não permite afirmar uma relação de causa e efeito, ou seja, não dá para dizer com certeza se o jornalismo melhora o IDH ou se o IDH atrai o jornalismo; mas o cruzamento de dados mostra que cidades com melhores indicadores sociais e econômicos tendem a ter mais veículos jornalísticos ativos. Uma relação que, para Dubes, reforça a ideia de que informação de qualidade também é infraestrutura de cidadania.

Mas nem tudo é desolação nos mapas que ele ajuda a desenhar. Em meio aos vazios, algumas histórias sinalizam um movimento de resistência, ou talvez de reinvenção. Um dos exemplos que Dubes gosta de citar veio de uma conversa com alunos da Universidade Federal Fluminense (UFF):

Durante uma oficina com estudantes de jornalismo, um dos alunos contou sua própria trajetória de produtor de conteúdo local. Morador de uma cidade pequena (Dubes não dá o nome exato, mas usa Saquarema como exemplo fictício) o rapaz começou com uma página de humor no Instagram. Um daqueles perfis típicos de “cidade da depressão”, voltado para memes e piadas internas. Mas à medida que a audiência crescia, a página virou, sem querer, o principal canal de informação da cidade. A demanda por notícias sérias, pautas locais e prestação de serviço começou a aparecer. Com isso, o aluno percebeu que precisava mudar o tom e até o nome do projeto. O que antes era “Saquarema da Depressão” virou “Saquarema da Informação”. E hoje funciona como um veículo jornalístico de fato, cobrindo temas que vão da política municipal aos eventos culturais.

“É um exemplo pequeno, mas muito simbólico”, analisa Dubes. “Mostra que existe um público sedento por informação de qualidade, mesmo onde nunca houve tradição de imprensa local. Às vezes, o jornalismo surge de onde menos se espera”

Esse tipo de transformação, de página de memes para jornalismo local, Dubes enxerga como uma resposta espontânea ao vácuo informativo. Não resolve a crise estrutural, mas abre uma fresta de esperança. Novas vozes, novos formatos, novas formas de contar histórias que talvez não passassem pelos filtros das redações tradicionais.

Ainda assim, o desafio é imenso. Porque, como ele próprio diz, o deserto de notícias não é só geográfico, ele é cultural, econômico e, muitas vezes, psicológico. Trata-se de convencer comunidades inteiras de que vale a pena querer o que nunca tiveram: um jornalismo que as olhe nos olhos e conte suas histórias com responsabilidade.